Ugo

Deixa eu apresentar Ugo. Ele é velho. Já cumpriu suas tarefas e o aposentaram. Eu com certeza nem olharia para ele se não tivesse sido obrigada. Sabe aquele nojinho quando você é criança e te forçam a beijar a tia enrugada que fala cuspindo? Foi quase isso que senti quando eu tive que mentir: “prazer em te conhecer”.

Sua velhice me faz duvidar da sua capacidade para cumprir com suas funções adequadamente. Não confio que ele vai conseguir acompanhar, e principalmente, dar segurança nas aventuras daqui pra frente. Ele as vezes faz uns barulhos estranhos, precisa parar por água mais do que o normal e seu cheiro não é definitivamente o de um bebê. Acho que ele se meteu num projeto além das suas capacidades.

Mas o que mais me incomodou sem dúvida, desde o primeiro instante, foi um detalhe gritante da sua aparência que revela despudoradamente todo seu passado. Ele é preto e suas portas são indubitavelmente brancas. Impossível todo mundo não perceber que foi um dia um carro de policia.

Foi esta incongruência que o fez irritantemente ridículo sob meu primeiro olhar ainda preconceituoso. Como viver uma vida hippie, rodando pelo mundo e morando livremente num ex-carro de polícia? Porque não uma Kombi colorida pintada com psicodélicas flores Love Power?

Durante o longo dia, enquanto ele rodava nas estradas e me mostrava a dourada costa da Califórnia e suas paisagens deslumbrantes, eu imaginava as histórias do seu passado com ressabio e desaprovação.

Quantas perseguições com sirene berrando loucamente e quantas cantadas de pneus em curvas fechadas? Quantas pessoas detidas, levadas para delegacia? Quantos feridos, quantos mortos? Quanto sofrimento? Quanta justiça e principalmente quanta injustiça?

E aí, sem perceber e aos poucos, outras perguntas desabrocharam em quanto eu observava: Quantos partos? Quantos feridos que conseguiram chegar a tempo no hospital? Quantos roubos frustrados? Quantas pessoas se aliviaram ao ouvir sua sirene virando a rua?

No final da sua vida ele finalmente pode viajar sem rumo, sem horário, sem obrigações. Agora serve de moradia, inundado pelo amor, abrigando sonhos de liberdade e respirando ar puro. Da sua imposta autoridade só sobrou a pintura desgastada como lembrança de uma época que agora parece tão distante e sem sentido.

Dormi tranqüila sussurrando pro Ugo: here u-go, baby!

 

#nineshviagem #dia2

?Califórnia

 

 

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