Sacrilégio

O último pôr do sol do ano. Ninguém na praia deserta. Só eu andando nos raios dourados, pisando a espuma prateada, afundando na areia branca, sentindo o mar azul esverdeado, colhendo pedrinhas das cinco cores. Minhas pegadas apagadas pela próxima onda, minha intromissão abafada a cada rajada do vento, meu sacrilégio perdoado na sua insignificante pequenez.

Rasgando a pureza, marcas de pneus na areia. Muitos. Grossos, fundos, pesados. Exagerados. Abusados. Invasivos. Marcando longitudalmente a brancura lisa da praia, se perdendo da minha vista na sua imensurável extensão. A presença humana no planeta violentado um equilíbrio imaculado, modificando o entorno sem noção, transgredindo desrespeitosamente o santuário que não é enxergado.

As algas pretas, que até então tinham aceitado seu lugar inexpressivo, passaram a gritar na minha frente. Grandes, enormes, largas, escuras, gosmentas, morrendo desidratadas na areia escaldante, agora manifestavam a essência da podridão.

Me imaginei deitada, com as marcas dos pneus no corpo, coberta pelas algas em putrefação. Imaginei uma vastidão de figuras humanas repetindo o mesmo padrão. Imaginei um sacrifício espontâneo, uma forma de pedir desculpas por sermos humanos, a espécie verdadeiramente inconsciente.

? Ninesh

?Wooli – NSW – Australia

 

 

Ninesh 2019 - Todos os direitos reservados