Poemas escritos nas árvores

Rabiscar ao acaso, toda criança sabe, é um prazer. Basta aparecer papel e lápis disponíveis que uma força inconsciente acorda, levanta o lápis e cria desenhos enquanto, distraídos, conversamos, ouvimos, estudamos ou simplesmente aguardamos. Mundos paralelos se cruzam e circulam juntos por instantes. Em transe o lápis desliza ora para direita, ora para esquerda, sem uma necessidade predeterminada de produção intencional. Acontece. E de repente, caíndo em si, a imagem aparece na nossa frente num surpreendente desenho pronto.

Rabiscos aparentemente caóticos, cada um original, único e irrepetível, mas ao mesmo tempo desvendando um padrão que dá coesão e pertencimento a uma coletividade.

Nos troncos dos eucaliptos linhas ziguezagueantes contam estórias. Cobrem a totalidade do tronco, subindo até alturas além da nossa curta visão e se perdem nas nuvens. Atravessam as várias camadas de casca prateada e se tingem de dourado ao entardecer.

Dentro da floresta a abundância dos traçados parece querer contar uma mensagem numa língua própria, aparentemente incompreensível na nossa estúpida limitação.

Poesia é a mágica da sensibilidade para além do entendimento. Poesia é compreensão.

 

 

?Minyon Falls –  Nightcap National Park – Gondwana Rainforests of Australia.

? As larvas de uma pequena mariposa Ogmograptis scribula crescem nas camadas da cortiça do tronco de um tipo especial de eucalipto australiano, o “scribbly gum” (Eucalyptus haemastoma). Os grafismos resultantes dos túneis são uma marca icônica da Austrália.

Cada larva completa seu desenho num ciclo anual que vá do outono à primavera, junto com o desenvolvimento da casca da arvore que a alimenta. Os desenhos que vemos agora foram feitos pelas larvas deste ano e repetem um tipo de padrão que inicia reto, ziguezaguea e retorna ao ponto de origem.

Estes ciclos se repetem anualmente a pelo menos 180 milhões de anos, desde que a época de surgimento desta floresta tropical que cubria o grande continente do sul, Gondwana.

? Ninesh

 

 

? Natalie Barnett – CSIRO

? Ogmograptis scribula

? larvas de Ogmograptis scribula cavando seus túneis

 

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