Olhos azuis

Tinha olhos azuis transparentes e vibrantes que mentiam sobre sua idade. Apareceu levando um 𝘤𝘭𝘢𝘷𝘦𝘭-𝘥𝘦𝘭-𝘢𝘪𝘳𝘦 florido numa mão e o Caco, seu branco cachorro peludo saltitante, na outra. Foi ele que parou, me cheirou e se acomodou para receber cafuné. Comentei da epífita que orgulhosamente brandia como um trofeu. Contei que era da família das bromélias e esclareci que, ao contrário do que ela creia, o galho era na verdade de outra planta que servia de suporte. Ela o tinha achado no chão, resultado dos ventos fortes tão caraterísticos da minha cidade natal, que ainda me surpreendem sempre que retorno a Montevideo como se fosse eternamente a primeira vez.

O fluir do monólogo que ia se concatenando era pura emoção, como se algo se abrisse na possibilidade de ser olhada nos olhos e ouvida com atenção. Olhos que por momentos marejavam e ficavam mais transparentes ainda, deixando ver a longa estória de 80 anos que começara na Suíça, que cruzara em Genova com um médico uruguaio farejando a trilha dos companheiros desaparecidos na ditadura, que fizera ela atravessar um oceano ao casar com ele e vir a aportar em Montevideo há tantos anos atrás, mas ainda insuficientes para fazer com que perdesse seu sotaque original.

Ele morreu ano passado. Ela flutua pelo Parque Rodó vendo o 𝘳𝘪𝘰 𝘨𝘳𝘢𝘯𝘥𝘦 𝘤𝘰𝘮𝘰 𝘮𝘢𝘳 à sua frente. Eu me emociono e me lamento por não ter dado aquele abraço apertado na hora que senti o chamado no ar, mas que foi se desvanecendo paulatinamente depois que aquele instante exato do clímax passou. (Tantas e tantas vezes já aconteceu antes na minha vida esse “quase” que num sopro, passa, pois não permite hesitação). Ela se afasta, me surpreendendo ao agradecer, não meu ouvido, mas meu sorriso que define como mágico.

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